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Editorial

Como pode o pobre sobreviver à Covid?

Por: Melissa Schirmanoff
Feb. 6, 2021, 7 a.m.

 

Uma pesquisa epidemiológica iniciada ainda em 2020, desenvolvida pela Universidade Federal de Pelotas, em parceria com o Ministério da Saúde é considerada, desde julho, quando seus dados foram divulgados, a maior pesquisa de Covid do Brasil.

O EPICOVID19, projeto de mapeamento da epidemiologia do novo coronavírus no Brasil já deixou um legado. Poucas vezes uma pesquisa científica chegou tão perto das pessoas no país inteiro. Os resultados divulgados quase em tempo real e publicados nas melhores revistas científicas e replicadas por praticamente todo veículo de informação, continua a cada dia sendo comprovada pelos fatos consolidados.

Analisando a fundo, mais que dados coletados e organizados, ela mostra o caminho percorrido pela disseminação do coronavírus expondo as diversas facetas das fragilidades regionais em nosso país, revelando o que já sabíamos.

O estudo nacional, conduzido em 133 cidades de todos os estados da federação, traz resultados que merecem destaque. A pandemia se comporta de forma muito distinta entre as regiões do Brasil: no Norte, cerca de 10% da população tem ou já teve coronavírus. No Sul, esse percentual ainda é abaixo de 1%.

A palavra desigualdade também salta aos olhos sob os pontos de vista socioeconômicos e étnico-raciais. Em todas as fases da pesquisa, as pessoas mais pobres apresentaram o dobro do risco de infecção em comparação às mais ricas. Além disso, indígenas apresentam um risco cinco vezes maior do que os brancos, assim como os negros em relação aos brancos.

A EPICOVID19 mostrou ainda que as crianças têm a mesma chance dos adultos de contraírem o vírus. E que quase 89% das pessoas infectadas apresentam algum sintoma, divergindo do entendimento corrente de que a maioria das infecções é assintomática.

O sintoma de perda de olfato ou paladar foi relatado por quase 60% das pessoas infectadas.

A pesquisa estimou que, de cada 100 infectados pelo coronavírus, um vai a óbito. E que, havendo um morador infectado na casa, a chance de os outros moradores também serem infectados é de 40%.

Confirmando a teoria do iceberg, que inspira o logotipo do projeto, o estudo mostra que o número real de pessoas com anticorpos é pelo menos seis vezes maior do que o número de casos que aparece nas estatísticas oficiais. Faltam testagens em massa por todo o país.

Em se tratando de Covid, os pobres é que acabam se dando mal. Não que os mais abastados financeiramente não morram de Covid, apenas eles tem acesso a um suporte médico e acompanhamento à medida de sua necessidade. Eles podem se dar ao luxo de ficar em casa, de continuar trabalhando através do home office, se isolar no campo, no sítio ou na casa de praia e, se ficar doente e precisar de internação, é atendido no mesmo dia através do seu plano de saúde ou pagando tudo particular. Seus filhos continuam a frequentar as escolas de forma online sem prejuízos no aprendizado e ano letivo. A grande maioria não se importa de aproveitar os finais de semana e feriados se deslocando a cidades litorâneas, frequentando festinhas e festões com aglomerações.

Já essa não é a realidade da grande maioria dos brasileiros, que tem que acordar cedo, se deslocar até o local do seu trabalho, enfrentar o transporte público onde a aglomeração é inevitável, ver o ano passar sem os filhos estudar e se apegar à fé de que não vai se contaminar nem tampouco ouvir falar em lockdow ou fase vermelha porque isso significa fechar seu posto de trabalho quando não perder o emprego e enfrentar filas para garantir ou reclamar pelo auxílio emergencial. No final do mês não sobra dinheiro para álcool em gel, a máscara de uso obrigatório é única e se ficar doente, não há como comprar remédio algum, é rezar para não agonizar ou lhe faltar o ar!