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Editorial

Máscara no queixo ou na testa, não!

Por: Melissa Schirmanoff
June 27, 2020, 7 a.m.

 

Não há como não associar a flexibilização da quarentena ao aumento do número de novos casos de contágio pelo coronavírus.

É o que temos acompanhado. São Paulo, por exemplo, tem atingido repetidamente números recordes de contágio e mortes em decorrência da Covid. Seria de fato em função do aumento da circulação de pessoas ou seria porque esse é o curso natural de uma doença que não atingiu o seu pico? Difícil encontrar resposta para esta pergunta até porque há pesquisadores que afirmam categoricamente que sim mas em contrapartida há aqueles que argumentam que não.

O fato é que os números aumentaram seja devido às medidas de flexibilização ou porque a doença ainda não atingiu o seu ápice. É só olharmos para várias localidades em nosso país e checar seus números.

Nos primeiros dias de maio o prefeito de Feira de Santana (BA), Colbert Martins, viu que o número de casos do novo coronavírus na cidade era muito baixo, os leitos em UTI estavam quase todos desocupados e decidiu afrouxar as regras de quarentena impostas duas semanas antes.

Vinte dias depois, Martins foi obrigado a voltar atrás diante do crescimento repentino dos casos em 105%, segundo uma pesquisa da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). Os registros de casos saltaram de 15 para mais de 30 por dia. O prefeito, que também é médico, diz que não se arrepende, mas aprendeu a lição.

Feira de Santana não é um caso isolado. Cidades e regiões que anteciparam a retomada das atividades econômicas registraram aumento do número de casos do coronavírus. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade da Região de Joinville (Univile) mostra uma inclinação vertical na curva de contaminações duas semanas depois de o governo do Estado ter flexibilizado as regras de isolamento.

De acordo com o estudo, as projeções feitas antes da flexibilização apontavam para um número em torno de 3 mil contaminados no Estado no início de junho. Na quarta-feira, Santa Catarina registrou 9.660 casos com 148 óbitos. O levantamento mostra que houve um salto de 130% de registros de contaminação nas duas semanas que seguiram a flexibilização da quarentena, anunciada pelo governador Carlos Moisés (PSL) no dia 13 de abril. Os números saltaram de 853 para 1.995 registros.

Em Governador Valadares (MG), a prefeitura decidiu flexibilizar a quarentena, com restrições, no dia 20 de abril, quando a cidade contabilizava apenas dez casos de covid-19. No dia 2 de maio, o número já havia triplicado.

Quadro semelhante se repete em outras cidades mineiras como Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, que reabriu as portas de maneira controlada no dia 21 de abril. No dia 22, segundo a Secretaria da Saúde de Minas Gerais, a cidade contabilizava apenas dois casos. Duas semanas depois, no dia 7 de maio, eram 15.

Minas e Santa Catarina estão entre os nove estados brasileiros que iniciaram a flexibilização do isolamento no final de abril dando liberdade aos prefeitos para adotarem as medidas que achassem necessárias.

Agora, com a flexibilização no estado de São Paulo vemos o mesmo acontecer. No interior do estado os números estão assustadoramente em ascensão. Geograficamente em sentido oposto, no Litoral Norte os números de novos casos surgem, em média, todos os dias. Em Ubatuba, estamos acompanhando um aumento do número de casos.

No entanto, era esperado que isso ia acontecer até porque a doença está escrevendo a sua história, ainda não é uma página virada.

Agora que tudo devesse permanecer fechado, é complicado. Uma semana, um mês, já representou o fim para muitos e muitos empreendimentos. O que fazer então diante desse impasse?

A solução está na educação e no respeito às medidas de prevenção por parte de toda a população. Não existe outra opção.

E a verdade é que desde o início sabemos o que deve ser feito. O problema é que não se faz - quem e quando pode - e quando faz, faz errado.

Quem pode, fica em casa. Quem não pode, ao sair de casa use máscara e leve consigo o álcool em gel. Higienize as mãos com frequência, não toque no rosto e troque a máscara a cada 2 ou 3 horas ou quando estiver úmida.

Nada de máscara no queixo, na testa, no pescoço, pendurada na orelha. Nada de tirar a máscara para falar e depois de derrubar ela no chão, colocar no rosto. Se não incorporarmos essa nova rotina no nosso dia a dia de forma correta ela perderá a sua eficácia e no fim das contas quem dará um passo para trás seremos todos nós.