Editorial

Responsabilidade

Por: Melissa Schirmanoff
June 13, 2020, 7 a.m.

 

 

Um grupo de quase cem entidades publicou recentemente uma carta aberta com críticas à omissão dos dados da pandemia de Covid-19 por parte do governo federal. Na avaliação dos signatários, "os mecanismos de transparência são fundamentais em um governo democrático para permitir a participação pública e a prestação de contas. Durante uma pandemia, a opacidade pode custar vidas".

"A falta de informação oficial sobre a pandemia não é apenas um ataque ao acesso à informação, ataca também a liberdade de expressão e de imprensa. Não se trata de casos isolados, mas que se inserem em um cenário do uso contínuo e sistemático da máquina pública para dificultar o trabalho de comunicadores, criar um ambiente hostil para o exercício profissional e, ao mesmo tempo, reduzir a transparência no governo de Jair Bolsonaro", diz o texto. Entre as entidades que assinam a carta, estão instituições que defendem o direito de acesso à informação, a melhoria do ambiente democrático e a promoção dos direitos humanos.

Mas afinal, além do discurso de acesso à informação e ao exercício da democracia o que mais afeta diretamente a vida de todos nessa questão?

A grande maioria das pessoas não quer nem saber se o número de mortos e de acometidos pela Covid no Brasil aumentou, duplicou, triplicou ou se vai atingir índices estratosféricos no tal pico de contágio da doença que parece que, a cada nova data anunciada por um especialista no assunto, é logo em seguida adiada.

As pessoas querem é saber se vão continuar em seus empregos, se vão arrumar outro no lugar daquele que perderam, se vão poder reabrir as portas do seu comércio, se vai ter clientes, se vão conseguir honrar suas contas, pagar as dívidas, se vão receber, quando e por quanto tempo o auxílio emergencial, se tem direito a alimentação escolar e às cestas básicas do programa Alimento Solidário do estado, se continuam a receber o bolsa família e por aí vai.

Ajuda, socorro, auxílio. É disso que o povo precisa. Números? Só interessa mesmo aqueles que preenchem a nossa carteira para que não falte o pão nosso de cada dia.

Cada um está por sí na luta pela sobrevivência. Essa é, na verdade, a pura realidade.

Se você falar pro camarada que está lá fila da Caixa Econômica esperando para ver se é possível alguém ali dizer o porquê do benefício dele ter sido negado, que o governo federal deixou de divulgar o número de contaminados, de recuperados e de mortos pela Covid e que em função disso a vida dele nesse momento também é afetada, que ele pode vir a precisar de um leito num hospital para se recuperar da doença você acha que ele entende ou se importa? Claro que não!

Infelizmente é uma verdade, mas ele não entende. Assim como tantas outras pessoas que embora sejam capazes de compreenderem e não fazem a mínima questão - como os que só querem saber se podem ou não circular livremente por aí, ir à praia, sair, passear, desestressar e curtir a vida. Aqueles que tem a vida ganha e não se importam com a alheia ou acredita que só morre quem já tinha que morrer.

Mas no quê exatamente esses números são capazes de afetar na minha e na sua vida?

O mais importante é que a divulgação de números condizentes com a realidade norteiam a adoção de medidas para a contenção da disseminação da doença o que implica em investimentos na saúde pública e também, em desvios e superfaturamentos na compra de insumos e equipamentos. Importa em evitar que, se contaminados, teremos a assistência necessária para nos recuperar.

Aí é que entrou, num dado momento, a questão do “estão inflando números para obter mais benefícios” ignorando que temos a cura para esse mal: os órgãos de controle. Cadê os Tribunais de Contas, o Ministério Público? Fiscalização pesada coíbe, pune e resolve!  Se a gente não puder mais acreditar na eficiência e na capacidade das entidades de controle dos gastos públicos então tudo estará perdido mais uma vez nesse país.

Coisas de Brasil, lamentavelmente! Sumir com os números da noite para o dia só trouxe mais insegurança sobre o fim desse pesadelo e sobre o controle da situação.

Cada município deve informar com exatidão as notificações de casos suspeitos no momento em que se coleta o material para ser submetido a teste e quando recebe o resultado, isso retorna em um número preciso de mais um caso confirmado ou descartado e posteriormente, em índice de óbito ou de recuperado.

O estado, que gerencia esses números junto aos municípios, os remete por sua vez ao governo federal que, num horário de atualização diária, somente soma e divulga em sua plataforma oficial. Não é o Ministério da Saúde o responsável pelos números, apenas pela soma deles e se há um indício de um problema aqui ou ali, que baixe uma ordem para que os estados e os municípios os corrijam imediatamente. Corte verbas, processe, exponha para a sociedade quem, como e onde.

Num primeiro momento os números eram oficialmente divulgados pelo Ministério da Saúde às 17horas, depois às 19h, depois passou para 20h, 20h50, 22h15 e de repente deixou de divulgar dando a brecha para que a sociedade se organizasse e coletasse esses dados diretamente dos estados – descontrole.

Quem tomou a frente? A imprensa que por sua vez, também não inventa. E é ela que pressiona para que absurdos não aconteçam e assim contribui para uma sociedade mais equilibrada. Ela coleta os dados diretamente da mesma fonte do Ministério da Saúde: as secretarias estaduais.

O que esperar em seguida? Se os números continuar em ascensão - o que já está acontecendo em decorrência da flexibilização - não se vai mais comprar EPIs, instalar respiradores, UTIs, ampliar leitos porque suspeita-se que o número lançado num determinado local é um pouco maior do que é na realidade? Na ponta da linha estão vidas que precisam ser salvas.

Com responsabilidade, todos, sem exceção de gestor municipal, estadual e federal precisam assumir o controle e exercer as suas funções.

Precisam se unir numa causa única nesse país: vencer a pandemia, a crise econômica e salvar vidas.

Será que é tão difícil?