Editorial

Temos pressa

A maioria já sabe, mas não custa ressaltar que a maneira mais eficaz de detectar essa doença é por meio da mamografia, capaz de identificar lesões pequenas e até mesmo as ‘não palpáveis’.

Por: Melissa Schirmanoff
Nov. 2, 2019, 7 a.m.

Novembro chegou deixando para trás mais uma campanha “Outubro Rosa”.

Desde o início da década de 1990, a campanha Outubro Rosa promove a conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama. De lá para cá houve muitos avanços na medicina de modo que hoje, a chance de cura da doença é de aproximadamente 95%.

Mas ainda precisamos quebrar alguns tabus e vencer grandes desafios relacionados às políticas públicas empregadas para atingir o grande número de mulheres acometidas com a enfermidade.

A maioria já sabe, mas não custa ressaltar que a maneira mais eficaz de detectar essa doença é por meio da mamografia, capaz de identificar lesões pequenas e até mesmo as ‘não palpáveis’. Apesar de todos os alertas e informações disponíveis difundidas principalmente através do Outubro Rosa, só 24% das mulheres brasileiras realizam o exame anualmente ou a cada dois anos, seja por questões individuais ou pela baixa disponibilidade de mamógrafos na rede pública.

Falta acesso aos recursos preventivos. E isso acontece no país inteiro.

Em Ubatuba há mulheres que relatam que buscaram o posto de saúde para obter um encaminhamento para se submeterem à realização de uma mamografia e ouvem que é só para mulheres acima dos 50 anos e que nem mesmo quando falam que apesar de não terem chegado aos 50, há casos na família de ascendentes diretos com a incidência da doença, nem assim recebem o encaminhamento. Só mesmo se apresentarem uma alteração visível na mama constatada pelo ginecologista é que irão obter o encaminhamento para a realização do exame. A solução para quem tem recursos financeiros é buscar a rede particular para a realização do tão importante exame.

O resultado disso é que 70% dos casos de câncer de mama ainda são detectados em estágio avançado no sistema de saúde pública no Brasil, de acordo com um levantamento feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo – USP, em 2018.

Isso acontece porque nem todos passaram da fase de acreditar que câncer de mama só acomete mulheres acima dos 50 anos. Eu fui diagnosticada com câncer de mama aos 42 anos e só porque notei a presença de um nódulo que de longe era pequeno. O médico que me atendeu desesperada em busca de fazer pela primeira vez uma mamografia, me disse que eu estava fazendo tempestade em copo d’água, que era normal surgirem nódulos na mama e que isso não significaria necessariamente o pior. Eu insisti muito em fazer a mamografia e o resultado do exame fez o médico perder o rebolado: era câncer sim. Um tumor enorme aliás, formado pela junção de microcalcificações que se uniram numa grande massa e que foi reduzido de tamanho à base de quimioterapia para depois ser totalmente extirpado na cirurgia de mastectomia. Ainda faz apenas um ano e um mês que terminei a quimioterapia e agora estou em fase de acompanhamento do chamado período de remissão da doença. Uma doença que não escolhe idade, nem classe social, que testa seu equilíbrio emocional e seu gosto pela vida. Uma doença que não escolhe hora e leva embora aquele que você mais adora.

Mas não pense que conseguir um diagnóstico precoce é o suficiente. Por que não é!

Outro fator preocupante são os atrasos no início do tratamento das pacientes, que podem chegar a 200 dias (quando não mais), segundo dados divulgados pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

A demora no diagnóstico e no início de tratamento no sistema de saúde pública compromete diretamente o índice de cura e o tempo de sobrevida da mulher.

Para que seja possível reduzir a mortalidade por câncer de mama no país como um todo, o ideal seria que 100% da população alvo tivesse acesso ao rastreamento da doença ou que pelo menos 70% da população o tivesse. Lembrando que de acordo com a recomendação do Ministério da Saúde as mulheres entre 50 e 69 anos tem direito ao exame preventivo ainda que a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e a Sociedade Brasileira de Mastologia recomende a partir dos 40 anos, sem limite superior de idade.

A boa notícia é que alimentação, controle do peso e atividade física reduzem em até 28% o risco de a mulher desenvolver esse tipo de tumor. Mas não tem jeito: os exames de prevenção e uma rotina saudável são as melhores formas de preservar a saúde como um todo.

O tratamento tem se tornado cada vez mais eficaz e capaz de levar à cura da doença mas infelizmente ainda engatinhamos no quesito prevenção e no início do tratamento a partir do diagnóstico e assim é que muitas vidas se perdem pelo caminho.

De nada adianta pintar o país de rosa em outubro se o que falta ainda é o acesso à prevenção e o início rápido do tratamento a partir do diagnóstico.

Corra! Insista! A doença não espera e por isso temos pressa!