A criança não frequentava a escola e dormia no chão em cima de uma placa de EVA (borracha). - Foto: Divulgação

Polícia

Menina de 11 anos morre por desnutrição

Segundo a Polícia Civil, ela foi acionada pelo hospital após o casal levar a garota ao pronto socorro, por volta das 21h20 de quinta-feira. E de acordo com a polícia, a menina chegou ao hospital já morta e os médicos atestaram desnutrição e palidez.

Por: Melissa Schirmanoff
Nov. 2, 2019, 7 a.m.

 

Uma menina de 11 anos morreu por desnutrição, na quinta-feira (24), em Ubatuba, após jejuar por dias seguidos, como forma de punição imposta pela mãe e pelo padrasto.

Eles confessaram que era corriqueiro obrigar a criança a ficar sem comer para "corrigir seu comportamento" e que estava há apenas três dias seguidos só tomando água.

A mãe, de 26 anos, e o padrasto da vítima, de 47 anos, foram presos na sexta-feira (25).

De acordo com a primeira versão contada pela mãe e pelo padrasto ainda no hospital, na quinta-feira (24), eles levaram a menina desfalecida até a Santa Casa, porém, após os médicos atestarem que ela estava desnutrida e pálida, não resistiu e acabou falecendo.

Segundo a Polícia Civil, ela foi acionada pelo hospital após o casal levar a garota ao pronto socorro, por volta das 21h20 de quinta-feira. E de acordo com a polícia, a menina chegou ao hospital já morta e os médicos atestaram desnutrição e palidez.

No dia seguinte, durante depoimento à polícia, o padrasto continuou afirmando que ela teria falecido em virtude de anemia e não se culpava por aquilo ressaltando ainda que faria de novo porque acredita que a purificação só é alcançada através de jejum.

Já a mãe da menina, ao ser confrontada com as provas colhidas até então pela polícia, acabou confessando que mantinha a menina em cárcere privado.

Ela confessou que mantinha a filha presa, dentro de seu apartamento, há cerca de cinco meses. Nesse período ela teria saído na rua apenas duas vezes. A criança não frequentava a escola e dormia no chão em cima de uma placa de EVA (borracha). Admitiu que a filha estava há 3 dias seguidos sem comer, apenas tomando água.

A mãe ainda teria dito que o seu outro filho também era submetido a esse tipo de punição, como ficar sem comer por vários dias ou ficar trancado em casa.

A menina chegou a pedir para comer e a mãe negou. A punição durou dois dias e causou a morte dela por desnutrição proteica calórica no terceiro dia.

No apartamento em que a garota morava, no bairro de Umuarama, região central da cidade,  

a polícia encontrou e apreendeu um diário no qual a menina de 11 anos relatava a rotina de orações e exercícios físicos. O conteúdo em detalhes não foi revelado pela polícia porque as informações estão sendo usadas no inquérito.

“Com as buscas, encontramos o diário relatando a rotina, que era jejuar, orar e fazer exercícios frequentes. Flexão, abdominal e mesmo sem alimento, ela era obrigada a fazer exercícios”, disse o delegado Ricardo Mamede, responsável pelo caso.

Em outro caderno, também apreendido no apartamento, a polícia encontrou escrito a justificativa que o casal daria às autoridades. A mãe e o padrasto pretendiam mentir, segundo a polícia, que a menina tinha anemia e teria morrido por falha dos médicos no hospital.

O casal havia se mudado para Ubatuba há um ano juntamente com os dois filhos, a menina de 11 e um menino de 8.

Após a confissão, os suspeitos foram presos em flagrante. Eles devem responder pelos crimes de tortura seguida de morte, sequestro, cárcere privado e abandono intelectual.

Eles passaram por audiência de custódia na tarde de sábado (26) e dali o padrasto foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória de Caraguatatuba e ela para a penitenciária feminina de Tremembé.

O irmão da vítima de 8 anos foi encaminhado para um abrigo da cidade e está sob os cuidados do Conselho Tutelar. O corpo da menina foi enterrado no cemitério municipal de Pindamonhangaba na manhã de sábado (26).

Laudo do IML confirma morte por desnutrição protéica grau 2

De acordo com o laudo do IML, assinado pelos peritos Drº Ricardo Côrtes e Arthur Bernardeli Neto, a menina chegou sem vida à Santa Casa de Ubatuba na quinta-feira (24), às 21h20min e a causa da morte é desnutrição protéica grau 2.

A desnutrição, segundo o diretor do IML no Litoral Norte, Drº Ricardo Côrtes, é um estado patológico causado pela falta de ingestão ou absorção adequada de nutrientes. O quadro da doença instalada é classificado em três níveis, de 1 a 3, conforme a gravidade. A da garota de 11 anos era de grau 2, suficiente para leva-la a óbito.

A causa de uma desnutrição pode ser primária ou secundária. Será primária a desnutrição se decorrer de ingerir quantidade ou qualidade inferior à mínima necessária para manter o corpo saudável; e será secundária a causa da desnutrição decorrer da ingestão de nutrientes insuficientes para o gasto calórico demandado pelo organismo - o que pode ocorrer eventualmente com atletas ou esportistas ou ainda por conta de algum fator externo no organismo que impeça a absorção dos nutrientes.