Editorial

Procura-se um youtuber

Por: Melissa Schirmanoff
Oct. 19, 2019, 7 a.m.

Enquanto assistimos passivamente o avanço das manchas de óleo contaminando as praias do nordeste – que já atingiu 178 praias de 72 municípios de 9 estados do Nordeste sem que fosse apontada a sua origem, os responsáveis e pior, sem que fossem adotadas medidas efetivas de contenção, um estabelecimento em Ubatuba foi interditado pela Vigilância Sanitária por lançar efluentes domésticos diretamente no mar.

O detalhe interessante é que o local interditado está localizado numa das praias mais movimentadas da cidade, no Tenório, e o despejo irregular lançado ao mar, entre pedras da encosta, era de conhecimento de muitos turistas e moradores que viam, sentiam o cheiro mas custavam acreditar que se tratava mesmo de lançamento de esgoto.

Realmente, em plena era onde o que mais se fala é na importância da preservação do meio ambiente é difícil acreditar que isso aconteça assim, à luz do dia, de frente para o mar, num dos lugares mais bonitos e movimentados de Ubatuba, vindo de uma propriedade conhecida não à toa como “Mansão do Tenório”.

Várias denúncias de crime ambiental foram formalizadas junto ao órgão competente e deram em nada até que um vídeo circulou nas redes sociais e então a fiscalização e a interdição ocorreu!

O estabelecimento deverá permanecer interditado até que comprove-se que as adequações necessárias tenham sido de fato realizadas, ou seja, que o despejo dos efluentes passem a ser conectados à tubulação de esgoto.

É claro que irão providenciar mas também é claro que muitas pessoas comuns irão lá, ainda que só de curiosidade, checar se daquele balaio não sai mais nenhum gato, ou rato!

A pergunta é: quantas outras propriedades não fazem o mesmo nessa cidade? Quantos outros prédios, residências, mansões e estabelecimentos comerciais não estão fazendo nesse exato momento o mesmo sem que ninguém denuncie, insista na denúncia, persista mais uma vez ou sem que alguém grave um vídeo e o publique comprovando o despejo de material sem tratamento em rios, afluentes ou diretamente no mar?

Fiscalização espontânea não existe. A fiscalização só ocorre mediante uma provocação que se dá através da formalização de uma denúncia ou como vimos, através de um vídeo que deixe bem claro onde é e o que de fato ocorre naquele local. E quem o grava não precisa se identificar nem dizer muita coisa principalmente quando as imagens falam por sí, ainda que não tenham a tecnologia de transmitir o cheiro. Basta dizer algo do tipo: “Eu estou em Ubatuba, na praia da Maranduba, em frente a este estabelecimento comercial onde funciona uma pousada e esta é a situação que se encontra hoje, dia 17 de outubro de 2019”. Só não esquece de filmar o entorno comprovando o local e não tão somente o suposto crime ambiental. Para ficar perfeito o vídeo e não restar dúvidas quando ele foi gravado, evitando assim que alguém conteste sua data, é só mostrar a capa da última edição de um jornal, de preferência o “A Cidade”, claro! Depois, é só encaminhar o vídeo para todos os grupos de que participa nas redes sociais e lógico, também para o jornal A Cidade que o divulgaremos em nossa fan page que conta com um público bem notável.

Quem sabe com tamanha boa intenção pela preservação da saúde pública e do meio ambiente, não se revela um novo youtuber? Material para inaugurar um novo estilo de canal é que não vai faltar!