- Foto: Divulgação/IBAMA

Editorial

Preparados?

Por: Melissa Schirmanoff
Oct. 12, 2019, 7 a.m.

 

O que incomodava há um mês atrás ganhou proporções imensuráveis. Das manchas de óleo que começaram a aparecer nas praias de Manaíra e do Bessa, em João Pessoa, Paraíba, no dia 1º de setembro, quarenta dias depois já se transformaram no maior acidente ambiental ocorrido no litoral do Brasil em termos de extensão.

As manchas de óleo foram encontradas em 138 praias de 62 cidades, atingindo 2.100 quilômetros dos nove estados do nordeste. Isso até a quinta-feira, 9 de outubro, (quando escrevi este texto) porque tudo indica que mais locais serão contaminados.

Na quarta-feira, 9, manchas de óleo foram encontradas na foz do rio São Francisco, no município de Piaçabuçu, no litoral Sul de Alagoas. E na Bahia, uma mudança no sentido dos ventos, está levando o óleo em direção à praia do Forte. E sem contenção alguma, deve seguir a viagem no sentido sul enquanto estiver no mar. É justamente na região sul do estado da Bahia que fica o arquipélago de Abrolhos, onde a temporada de baleias permanece até meados de novembro.

Dez tartarugas encontradas já morreram como consequências diretas do contato com o óleo e um número ainda incontável de animais marinhos e aves foram afetados.

A princípio, pensava-se que era um despejo ilegal em alto mar, mas, tendo em vista a quantidade de petróleo, essa possibilidade está praticamente descartada. O que parece mais provável é que se trate de um derramamento acidental. Intencional esperamos sinceramente que não mesmo! Mas até agora só temos certeza de uma coisa: o petróleo não é de origem brasileira e logo será revelada a sua identidade - é possível identificar a origem do petróleo produzido em qualquer parte do mundo por meio de uma análise química.

De acordo com análises feitas pela Petrobras, trata-se de petróleo venezuelano.

Seja qual for a sua nacionalidade, o fato é que o homem está matando o planeta.

É crime ambiental e os responsáveis devem ser identificados e punidos sem limites de fronteiras.

Através de imagens de satélite estão “tentando” identificar a origem das manchas de petróleo, mapeando-as, informação esta que será contrastada com os dados do tráfego marítimo na área com as informações de patrulha de navios realizada pela Marinha Brasileira, simulações computacionais sobre as influências de corrente no Atlântico Sul e análise dos perfis químicos dos resíduos coletados.

As investigações como sempre parecem caminhar em “slow motion” enquanto o petróleo avançou sem que ações emergenciais de contenção fossem adotadas.

Até que ponto estaríamos despreparados para lidar com acidentes ambientais?

O trabalho que está sendo feito até agora é apenas o de retirar as manchas (de sedimentos de petróleo) das praias - processo muito longo e custoso, que requer, por sinal, um investimento não apenas financeiro, como também em mão de obra e logística.

Isso sem falar que o ecossistema costeiro do nordeste do Brasil é muito frágil, com manguezais, enseadas rochosas e recifes de coral. No manguezal, um ambiente com biodiversidade excepcional, é praticamente impossível eliminar o petróleo. O dano pode ser irreparável e os ecossistemas levarão anos para se recuperar. Também é um problema grave para a fauna, especialmente para as tartarugas, que não podem sair para a superfície.

E como se não bastasse, o impacto econômico e social é considerável, porque o nordeste depende muito do turismo e já há turistas já não querem ir às praias de lá em função da falta de balneabilidade.

E por falar em balneabilidade, a das praias do Litoral Norte de São Paulo onde inclui-se Ubatuba que se cuide.

A alta temporada já está começando e a expectativa, com a alteração da rota dos turistas, é a de ocuparem em maior número nossas praias. Em meio aos efeitos devastadores deste desastre ambiental, estaríamos preparados para recebê-los?