Para refletir

Nossos pés

Por: Turma do Haroldo
Sept. 21, 2019, 7 a.m.

Desde o dia em que tu nasceste eu criei a ilusão, dentro de mim, que poderia caminhar por ti. Imaginei que colocaria teus pés sobre os meus e te levaria pelos caminhos que eu julgasse mais tranquilos e seguros. Dessa maneira, tu nunca feririas teus pés pisando em espinhos ou em cacos de vidro. Nem jamais se cansaria da caminhada, nem mesmo precisarias decidir qual estrada tomar. Isso seria eternamente minha responsabilidade. Assim foi durante um bom tempo, caminhei por ti, para ti.

De repente, o tempo veio me avisar bruscamente que essa deliciosa tarefa não faria mais parte dos meus dias. Teus pés cresceram e eu já não conseguia mais equilibrá-los em cima dos meus, daí quando eu menos os esperava escorregaram e alcançaram o solo.

 

Hoje sou obrigado a vê-los trilhar caminhos nos quais os meus jamais os levariam e ainda tento detê-los insistentemente, mas só em raríssimas vezes consigo. Agora só me é permitido correr com os meus, junto aos teus. E, em certos momentos, teus passos são tão largos que quase não posso acompanhá-los.

Atualmente, assisto aos teus tropeços sempre na prontidão para  levantar-te das tuas quedas. Por vezes, tu me estendes as tuas mãos em busca de socorro, outras, mesmo estando estirado ao chão e ferido, insistes em levantar-te sozinho por puro orgulho ou para me provar que já és capaz de erguer-te após teus tombos e curar-te de tuas próprias feridas... Não sei se já consegues se cuidar...   Mas...

Assim vamos vivendo e sinto uma saudade imensurável daquele tempo que precisavas de mim para conduzir-te, pois era bem mais fácil suportar teu peso sobre meus pés, do que sobre meu coração. No entanto, já consigo compreender como a vida é sábia. Percebo, finalmente, que em algum momento tu precisaste mesmo desbravar teus caminhos independentes de mim. Afinal, não tarda muito, serei eu que precisarei de teus pés sob os meus e tu só terás forças para me conduzir porque te permiti caminhar por um bom período sozinho, aprendendo assim a difícil tarefa de viver.

 

Que tu tenhas a resistência necessária para suportar meu peso sobre teus pés como eu tive para suportar os teus. É bem verdade que farás isso por um tempo inferior ao que eu fiz. Mas, como eu, é provável que tenhas que fazê-lo com mais alguns pés sobre os teus os dos teus filhos. Não, claro que não é uma tarefa fácil, mas se eu consegui, tu também conseguirás porque plantei em teu coração o melhor e mais poderoso aditivo para que suporte tanto peso, o amor! Que é a pura manifestação de DEUS em nós...

 

“Acorda, você vive”.

Peixinho Haroldo