Editorial

Paz de Iperoig

Aviso importante: este texto contém spoiler

Por: Melissa Schirmanoff
Sept. 14, 2019, 7 a.m.

“A Vida de Pi” (The Life of Pi), do espanhol Yann Martel, é um daqueles livros que você começa a ler e é sugado para dentro da história. Cada detalhe da saga do menino Piscine Molitor "Pi" Patel é descrito nos mínimos detalhes. Há dois narradores, o próprio Pi (que explica a origem de seu nome, inspirada em uma luxuosa piscina pública francesa e o apelido que ele tanto lutou para "pegar") e um escritor, que fica sabendo da saga deste menino que se mudava de navio da Índia para o Canadá quando uma tempestade afunda a embarcação, deixando-o à deriva em um bote, com uma zebra, uma hiena, um orangotango e Richard Parker, um tigre de bengala.

A história, de tão boa, foi adaptada para os cinemas pelo chinês Ang Lee que soube encantar e envolver o espectador com cenários fantásticos descritos pelo protagonista ao curioso e incrédulo escritor. Peixes voadores e ilhas desertas servem para recarregar, de tempos em tempos, a fé e a esperança de quem está à deriva em algum ponto qualquer do Oceano Pacifico na companhia de um felino de dentes afiados.

Na obra são contadas duas versões da mesma história, uma com metáforas e uma versão original de como tudo realmente aconteceu. (a partir daqui o texto contém spoiler).

No final do filme, é revelado que a versão da história com os animais é uma modificação criada pelo Pi da versão original. Nesta versão, os animais representam pessoas que sobreviveram ao naufrágio juntamente com o Pi Patel. O orangotango era a mãe do Pi, a zebra era um marinheiro, a hiena era o cozinheiro e o tigre representava o próprio Pi. Ou seja, algo horrível aconteceu no bote salva-vidas: o cozinheiro matou o marinheiro e a mãe de Pi, sendo depois morto por ele.

O adulto Pi Patel pergunta ao escritor qual das versões ele gosta mais, e ele responde que gosta mais da segunda.

O jovem indiano criou uma história diferente para disfarçar a brutalidade da realidade, de tal forma que essa passou a ser considerada pela mídia como a versão verdadeira.

A moral da história é que nós acabamos sempre escolhendo naquilo que vamos acreditar e isso influencia diretamente no modo como vivemos, como nos comportamos e superamos as adversidades que a vida nos apresenta.

Tal como na premiada obra literária, é a passagem história que ocorreu em terras de Coaquira: a “Paz de Iperoig”. Existem duas versões. A contada à mídia e repassada por anos e anos às salas de aulas deste país afora através dos livros didáticos de história como sendo o primeiro tratado de paz das Américas firmado entre índios e brancos com direito a happy end, que deixa a consciência de qualquer um bem tranquila.

De acordo com a outra versão, o “Tratado de Paz de Iperoig” foi na verdade, um fiasco. Foi apenas um ato de politicagem de políticos que ainda se chamavam apenas de colonizadores e que estavam aqui apenas para explorar as riquezas do território brasileiro. A história verdadeira por trás desse tratado terminou em traição dos colonizadores e um banho de sangue dos índios que aqui habitavam.

Não sobrou índio para contar a outra versão da história. E a paz, bem, de fato aconteceu, afinal, os colonizadores passaram a dominar o território sem empecilhos nem opositores.

Como o Tratado de Paz de Iperoig foi firmado em 14 de setembro de 1563, foi instituído feriado em Ubatuba nesta data (14 de setembro). Se a ela cabe comemoração por ser o primeiro tratado de paz firmado nas Américas entre brancos e índios ou se a ela cabe uma reflexão sobre o que somos e o que fazemos para alcançar o que queremos, é você quem escolhe!